cartografia da diáspora — Siringe, de Pollyana Sousa
Vencedor do Prêmio Maraã de Poesia 2020, Siringe é o livro de estreia da baiana Pollyana Sousa, tendo sido publicado em parceria entre a editora Reformatório e a editora Cousa. Na obra, Pollyana elabora, de maneira sensível e poética, a cartografia, ou melhor, a construção de um corpo diaspórico.
Em Siringe, a voz é elemento fundamental, algo que fica claro já no título do livro, que faz referência ao órgão vocal das aves, tendo as quatro partes que dividem os poemas nomeadas a partir de nomes, também, de aves. São poemas que clamam para si um nome, sobretudo, que querem se deslocar da passividade e subserviência, e que trazem esse movimento a partir de um lirismo bem estruturado, bem como o canto de um pássaro.
Na primeira parte do livro, Assum preto, que faz referência a ave de cor preta e canto noturno, já nos apresenta nitidamente o tom testemunhal em que se constrói Siringe, elencando os atravessamentos raciais como a diáspora, ancestralidade e resistência. Isso pode ser observado no poema Sousa (p. 12):
“ousas
trocar meu sobrenome
mudar minhas letras andantes
perder meu dente de leite”
O poema, que se destaca pelo tamanho e pelos versos enxutos, questiona o apagamento histórico dos nomes dos corpos negros no país trazendo uma poesia provocativa, em que sonoridade e imagem se fundem. Isso se vê já no primeiro verso, que brinca com o título (Sousa/ousas).
Ao longo do livro, o contorno testemunhal ganha mais força. A segunda parte do livro, Papa Capim, foca-se na construção de subjetividades a partir, principalmente, da ancestralidade. Aqui, porém, Pollyana não poupa em expor sentimentos conflitantes em relação à mãe ou à avó, conseguindo elaborar uma poética em que a dimensão racial e a privada são atravessadas uma pela outra. Isso se vê de maneira evidente no poema karma (p. 40):
“foram nove meses sem saber se era cárcere.”
Em um único verso, Pollyana consegue abordar de maneira sensível e verdadeira a dor da maternidade negra, uma dor que seria reelaborada e repetida (como se vê no título, karma), fazendo referência à própria existência (marcada pela violência), essa que não pode ser senão repassada adiante. No poema, tanto a figura da mãe quanto da filha são deslocadas uma da outra pelo sentimento partilhado de aprisionamento.
A terceira parte de Siringe, Sabiá Laranjeira, a presença da subjetividade e do eu-lírico torna-se mais nítida e amadurecida. Ao ter elaborado, nas duas primeiras partes, seus atravessamentos externos, em Sabiá Laranjeira Pollyana traz para a sua poesia o corpóreo e o erótico de maneira mais explícita. Porém, essa corporeidade não é deslocada de sua realidade material enquanto mulher racializada, logo, a violência, a repressão e a invisibilidade também são elementos tocantes a essa elaboração:
“frequentemente, calor
primordialmente, boca
coincidentemente, certeiro
pontualmente, meu”
(fantasia, p. 72)
A parte que encerra o livro, Soldadinho do Araripe, traz uma tonalidade e uma poesia diferentes do que sê vê ao longo de Siringe. Além da maior experimentação gráfica nos poemas, Pollyana também assume, aqui, um texto voltado para o cotidiano, ainda mais marcado pela concisão que define sua poesia. Trata-se de uma poesia divertida, mas carregada em sua intensidade. Um bom exemplo é o poema rec (p. 106):
“é só um recado.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ok.
não precisa filmar.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ok. continue falando.
não filmar o recado
é só um recado.
⠀⠀⠀⠀⠀ok. vamos continuar daqui.
podemos enquadrar um pouco mais à direita?
não
…
você gravou?
⠀⠀⠀⠀⠀o quê?”
Por fim, pode-se dizer que a cartografia da voz proposta por Pollyana em Siringe dá conta de elementos sociais e subjetivos de maneira equilibrada e madura, com a força de um canto de um pássaro, como diz Eduardo Rosal na orelha do livro.