Pollyana Sousa, por Ingrid Morandian
OBATALÁ se constitui num espaço aberto para a literatura negro-brasileira. Aos autores e autoras brasileiras afrodescendentes que, há tanto tempo, tem sua cultura, suas ideias, suas posições, sua expressividade, enfim, sua escrita, oprimida, desprezada, deslocada, ou até mesmo esquecida. Essa literatura, porém, tem raízes fortes, tem antecedentes antigos, tem fonte originária na África, e mostra toda sua potência ao longo de nossa história. Veja-se Machado de Assis, Lima Barreto, Carolina de Jesus.
E, mesmo assim, mesmo tendo figuras canônicas tão celebradas, a literatura afrobrasileira contemporânea tem crescido, amadurecido e se mostrado ainda mais potente e poderosa, tanto na prosa quanto na poesia. OBATALÁ convida a todas e todos a participarem deste espaço e desse momento histórico e juntos contribuirmos e construirmos uma arte e cultura que representa, verdadeiramente, essa parcela da população e de nossa autêntica identidade.
Pollyana Sousa
mais belos dos belos
quem quer ouvir lamúria de preto?
bonito é o contraste do sorriso branco
o dom do maldito
a arte do aprisionado
quem quer ouvir lamúria de preto?
excitante é a força do forçado
a dança do bobo
o cortejo dos rejeitados.
●
À Tula Pilar,
gente de fibra
o arame não corta
cerca todo o nosso corpo preto
tem uma farpa em seu dedo
pele morta de madeira
o campo descentra-nos
em retalhos
e os diários viram samba
ah! que bonito seu vestido rodado
um sopro de vidro
quente
preta
quebraram tuas louças perenes
e só o plástico passeia
o corte cavado do papel
derrama água de beber
exílio
textos foram rasgados, amassados, pisoteados
e a casca ovípara
vive
poder e voz para as mulheres negras!
●
luz de labirinto
a transparência da puridade
cresce vulgar
o opaco das incertezas
retoma a estranheza da infância
desconhecido medo, qual hora certa de bradar?
são tantos lados
angústia
a surpresa nunca mais será encanto.
●
o fruto
é verdade o que dizem sobre o fruto
ao cair, por madureza, podridão ou força maior.
contudo, seu destino traçado é um mito.
às vezes ali caído
alguém passa e o entrega um lar
faz um belo e delicioso doce
come a casca nutrida de fibra
rega a semente em terra nova
deves ou no ponto de colheita
há quem enxergue arte
pintura realista
ilustração infantil
fotografia premiada
adorne talvez a mesa farta
de uma família abastada
ou matando a fome
em casa de taipa
porém, como em qualquer pura natureza
em ato ríspido e orçado
há quem carregue o fruto consigo
ainda novo, em grama verde
para que apodreça em tempo
sob seus olhos de gozo.
●
senhora moça
entre as
páginas
de um livro antigo
não haveria
melhor lugar
para te perder
hábito juvenil
flor
em obra póstuma
●
a corda
vivi n
a cor
da ba
mba a
c o r d a
na jan
ela e eu
bamba.
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Pollyana Sousa é natural de Feira de Santana, nasceu em fevereiro de 1990. Foi uma das poetas do CLIPE Poesia – Curso Livre de Preparação de Escritores da Casa das Rosas, 2021. Siringe, seu livro de estreia, é vencedor do Prêmio Maraã de Poesia 2020 na categoria autores estreantes.